segunda-feira, 4 de março de 2013

Estado da Arte



Atualmente o Festival Folclórico de Parintins é visto como uma das maiores representações folclóricas do mundo. Sua expressividade cultural é tão notável que eventualmente é confundido com a própria folia de Momo. Mas, apesar de terem semelhanças, trata-se de conteúdos e estruturas bem diferentes. Misturando elementos de artes distintas, o Boi de Parintins assume uma estrutura bem complexa em relação ao mundo da linguagem artística, levando em consideração que seus componentes agem de forma “cotidiana” e “extra cotidiana” sem se afastarem muito de sua realidade. A vida que levam naturalmente enquanto habitantes caboclos da região ganha ressignificação para o conteúdo do espetáculo no bumbódromo, ou seja, dançam para si próprios o seu viver.

Sobre as performances executadas durante a apresentação do boi na arena, o professor e doutor Ricardo Biriba (2008), da UFBA, afirma, que “na performance do Boi-Bumbá, o brincante constitui um elemento autônomo e permanente. Os seus gestos, movimentos e expressões, refletem e representam a sua vida cotidiana.” Assim percebe-se que, inevitavelmente, brincante, boi, ambiente e conteúdo complementam-se como componentes de pura definição do espetáculo. O brincante dá vida ao espetáculo, ao boi. É o que diz John Cage (1981):Eu sou uma obra de arte.” O artista sente-se a própria arte, dela não se separando. Arte e vida confundem-se como fazer artístico consciente de uma realidade cotidiana, “arte na vida e vida na arte”.

Seguindo a linha de Schecnner, Biriba diz que “o certo é que a vida se constrói com uma série de performances”, performances estas que são expressas das mais variadas formas. E o Boi de Parintins apresenta-se com esta mistura performática. Entretanto, é bom lembrar-se que em meio a esta mistura que dá vida ao evoluir espetacular coletivo dos bois, existem particularidades. Subjetivismo e objetivismo. Cada brincante é um brincante com uma teatralidade cotidiana própria. Cada um tem seu jeito de ser, de torcer, de se vestir, de dançar, de viver. Como diz Biriba, “os brincantes não fazem de conta que riem ou que choram, ou que cantam... Cada um é único e verdadeiro.” Isto ganha destaque na Organização do conjunto folclórico, momento em que estão dispostos na arena todos os itens e sua diversidade é contemplada como forma de espetáculo. Armindo Bião, a respeito da espetacularidade, em seu livro Etnocenologia e a cena baiana: textos selecionados (2009), diz que:



De fato, em algumas interações humanas – não em todas - percebe-se a organização de ações e do espaço em função de atrair-se e prender-se a atenção e o olhar de parte das pessoas envolvidas. Aí, então, de modo – em geral – menos banal e cotidiano, que no caso da teatralidade, podemos perceber uma distinção entre (...) atores e espectadores. (BIÃO, 2009, p. 35)



“A espetacularidade nos bois-bumbás vivencia o desenvolvimento corporal em comunhão com a plástica dos objetos, da forma, do espaço, do movimento, da dança, da luz e da cor, integrados ao tempo e à música, num só momento.” A afirmação de Biriba (2008) lembra a definição do item Organização do conjunto folclórico, segundo o regulamento do concurso de Bumbás de Parintins, a reunião de todos os itens e sua diversidade. Este conjunto folclórico na apresentação dos bois de Parintins torna-se o meio pelo qual todo o trabalho dos artistas, em geral, é apreciado como aquilo que chama atenção e prende o olhar, o espetáculo. O conjunto folclórico, a estética do belo, do espetacular torna-se ponto de encontro de todos os que constituem o Festival Folclórico de Parintins, direta e/ou indiretamente, fazendo com que o espetáculo torne-se um ponto de encontro de culturas, um fator de socialização, ao qual Paes Loureiro (2001) refere-se como “uma realização física e social da arte criadora de uma convivialidade na qual o estético é vetor de sociabilidade, reveladora de uma real emoção estética e afetiva da coletividade.”.

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