Atualmente o Festival
Folclórico de Parintins é visto como uma das maiores representações folclóricas
do mundo. Sua expressividade cultural é tão notável que eventualmente é
confundido com a própria folia de Momo. Mas, apesar de terem semelhanças, trata-se
de conteúdos e estruturas bem diferentes. Misturando elementos de artes
distintas, o Boi de Parintins assume uma estrutura bem complexa em relação ao
mundo da linguagem artística, levando em consideração que seus componentes agem
de forma “cotidiana” e “extra cotidiana” sem se afastarem muito de sua
realidade. A vida que levam naturalmente enquanto habitantes caboclos da região
ganha ressignificação para o conteúdo do espetáculo no bumbódromo, ou seja,
dançam para si próprios o seu viver.
Sobre as performances
executadas durante a apresentação do boi na arena, o professor e doutor Ricardo
Biriba (2008), da UFBA, afirma, que “na performance do Boi-Bumbá, o brincante
constitui um elemento autônomo e permanente. Os seus gestos, movimentos e
expressões, refletem e representam a sua vida cotidiana.” Assim percebe-se que,
inevitavelmente, brincante, boi, ambiente e conteúdo complementam-se como componentes
de pura definição do espetáculo. O brincante dá vida ao espetáculo, ao boi. É o
que diz John Cage (1981): “Eu sou uma obra de arte.” O artista
sente-se a própria arte, dela não se separando. Arte e vida confundem-se como
fazer artístico consciente de uma realidade cotidiana, “arte na vida e vida na arte”.
Seguindo a linha de
Schecnner, Biriba diz que “o certo é que a vida se constrói com uma série de
performances”, performances estas que são expressas das mais variadas formas. E
o Boi de Parintins apresenta-se com esta mistura performática. Entretanto, é
bom lembrar-se que em meio a esta mistura que dá vida ao evoluir espetacular
coletivo dos bois, existem particularidades. Subjetivismo e objetivismo. Cada
brincante é um brincante com uma teatralidade cotidiana própria. Cada um tem
seu jeito de ser, de torcer, de se vestir, de dançar, de viver. Como diz
Biriba, “os brincantes não fazem de conta que riem ou que choram, ou que cantam...
Cada um é único e verdadeiro.” Isto ganha destaque na Organização do conjunto
folclórico, momento em que estão dispostos na arena todos os itens e sua diversidade
é contemplada como forma de espetáculo. Armindo Bião, a respeito da
espetacularidade, em seu livro Etnocenologia
e a cena baiana: textos selecionados (2009), diz que:
De fato, em algumas interações
humanas – não em todas - percebe-se a organização de ações e do espaço em
função de atrair-se e prender-se a atenção e o olhar de parte das pessoas
envolvidas. Aí, então, de modo – em geral – menos banal e cotidiano, que no
caso da teatralidade, podemos perceber uma distinção entre (...) atores e
espectadores. (BIÃO, 2009, p. 35)
“A espetacularidade nos
bois-bumbás vivencia o desenvolvimento corporal em comunhão com a plástica dos
objetos, da forma, do espaço, do movimento, da dança, da luz e da cor,
integrados ao tempo e à música, num só momento.” A afirmação de Biriba (2008)
lembra a definição do item Organização do conjunto folclórico, segundo o
regulamento do concurso de Bumbás de Parintins, a reunião de todos os itens e
sua diversidade. Este conjunto folclórico na apresentação dos bois de Parintins
torna-se o meio pelo qual todo o trabalho dos artistas, em geral, é apreciado
como aquilo que chama atenção e prende o olhar, o espetáculo. O conjunto folclórico,
a estética do belo, do espetacular torna-se ponto de encontro de todos os que
constituem o Festival Folclórico de Parintins, direta e/ou indiretamente,
fazendo com que o espetáculo torne-se um ponto de encontro de culturas, um fator
de socialização, ao qual Paes Loureiro (2001) refere-se como “uma realização
física e social da arte criadora de uma convivialidade na qual o estético é
vetor de sociabilidade, reveladora de uma real emoção estética e afetiva da
coletividade.”.

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