A espetacularidade da Organização
do conjunto folclórico no Festival Folclórico de Parintins é o elemento
qualitativo crucial para uma análise completa da apresentação. É neste quesito
que se pode observar o quanto as agremiações tem verdadeira paixão por aquilo
que fazem, mostrando ao mundo suas tradições e conexões com o novo, através de
uma criatividade exposta em proporções de extrema magnitude representada por
meio do auto do boi-bumbá. A Organização do conjunto folclórico é o último item
de julgamento de cada noite de apresentação e, segundo o regulamento, define-se
como uma “reunião de itens individuais, artísticos e coletivos embasados no
conteúdo do espetáculo, e, por sua vez, dispostos organizadamente na arena de
apresentação”. É um item coletivo e, exatamente por abranger mais amplamente
toda a temática trabalhada, é neste momento da apresentação que se tem o grande
encontro da cultura indígena com a negra e a europeia que, miscigenadas,
conectam-se com o contexto através do conteúdo do espetáculo.
São avaliados neste
quesito aspectos baseados na organização conjuntural e de apresentação dos bois
durante sua exibição na arena, bem como o tempo limite, e tendo como elementos
comparativos a “indumentária, alegria pertinente ao conteúdo do espetáculo, diversidade
de estrutura e fantasia com fidelidade ao tema”. Em outras palavras, é o
espetáculo propriamente dito. A dinâmica espetacular e performática do item/quesito
aqui analisado se dá nos momentos finais de cada noite de apresentação, quando
todos os componentes, de cada agremiação, que constituem o auto do boi em
Parintins, passam e/ou estão na arena, o bumbódromo, para finalizar a
apresentação, lembrando que esta é única em cada noite, sendo que nas três se
terão exibições diferentes, que seguem um roteiro temático que rege a ação
cênica.
É importante que se
saiba que a existência e apoteose performática e espetacular deste item se dão
não apenas em si, isto é, no ato em que o item é anunciado para julgamento, mas
a partir de uma observação e atuação crítica que se dá desde o início da
apresentação de cada noite, analisando o processo evolutivo para, enfim, se ter
um equilíbrio final com sucesso; Entretanto, deve-se ficar claro que,
tratando-se de julgamento, apesar de englobar a apresentação do início ao fim e
comportar a maioria dos itens em um só, o quesito Organização do conjunto
folclórico não é o ápice da apresentação. O ponto culminante fica por conta do
item “Ritual”, que, diz o regulamento, é a “recriação de um rito xamanístico,
fundamentado através de pesquisa, dentro do contexto folclórico do boi-bumbá”,
observando-se a teatralização, criatividade, beleza, fidelidade à toada,
originalidade, desenvolvimento e efeitos. Mas isso também é abocanhado e entra
na Organização do conjunto folclórico.
Esta organização incorpora
elementos de áreas de conhecimento e artes distintas, com destaque para o
aspecto dramático em momentos variados, permitindo a união de música, danças,
artes visuais e movimentos de expressão teatral de seus componentes, um
trabalho que se inicia com meses de antecedência da grande noite, sendo de
extrema importância seu processo de criação, sua construção para o momento
apoteótico. Observando apenas o item Organização do conjunto folclórico,
ironicamente desligado dos demais, mas formado pelos mesmos elementos, por si
só, percebe-se o quanto se trata de um verdadeiro espetáculo, de fato grandioso,
que tem seus campos de estudo na Etnocenologia, nas Artes do espetáculo. No
geral, seu significado, sofisticação e magnitude relacionadas ao espaço
geográfico e longo tempo histórico no qual as ações se concretizam são
importantes fatores para explicar a admiração dos visitantes da região, que
estranham a possibilidade da realização de um evento tão espetacular no meio da
floresta.

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