terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Delimitação




A espetacularidade da Organização do conjunto folclórico no Festival Folclórico de Parintins é o elemento qualitativo crucial para uma análise completa da apresentação. É neste quesito que se pode observar o quanto as agremiações tem verdadeira paixão por aquilo que fazem, mostrando ao mundo suas tradições e conexões com o novo, através de uma criatividade exposta em proporções de extrema magnitude representada por meio do auto do boi-bumbá. A Organização do conjunto folclórico é o último item de julgamento de cada noite de apresentação e, segundo o regulamento, define-se como uma “reunião de itens individuais, artísticos e coletivos embasados no conteúdo do espetáculo, e, por sua vez, dispostos organizadamente na arena de apresentação”. É um item coletivo e, exatamente por abranger mais amplamente toda a temática trabalhada, é neste momento da apresentação que se tem o grande encontro da cultura indígena com a negra e a europeia que, miscigenadas, conectam-se com o contexto através do conteúdo do espetáculo.

São avaliados neste quesito aspectos baseados na organização conjuntural e de apresentação dos bois durante sua exibição na arena, bem como o tempo limite, e tendo como elementos comparativos a “indumentária, alegria pertinente ao conteúdo do espetáculo, diversidade de estrutura e fantasia com fidelidade ao tema”. Em outras palavras, é o espetáculo propriamente dito. A dinâmica espetacular e performática do item/quesito aqui analisado se dá nos momentos finais de cada noite de apresentação, quando todos os componentes, de cada agremiação, que constituem o auto do boi em Parintins, passam e/ou estão na arena, o bumbódromo, para finalizar a apresentação, lembrando que esta é única em cada noite, sendo que nas três se terão exibições diferentes, que seguem um roteiro temático que rege a ação cênica.

É importante que se saiba que a existência e apoteose performática e espetacular deste item se dão não apenas em si, isto é, no ato em que o item é anunciado para julgamento, mas a partir de uma observação e atuação crítica que se dá desde o início da apresentação de cada noite, analisando o processo evolutivo para, enfim, se ter um equilíbrio final com sucesso; Entretanto, deve-se ficar claro que, tratando-se de julgamento, apesar de englobar a apresentação do início ao fim e comportar a maioria dos itens em um só, o quesito Organização do conjunto folclórico não é o ápice da apresentação. O ponto culminante fica por conta do item “Ritual”, que, diz o regulamento, é a “recriação de um rito xamanístico, fundamentado através de pesquisa, dentro do contexto folclórico do boi-bumbá”, observando-se a teatralização, criatividade, beleza, fidelidade à toada, originalidade, desenvolvimento e efeitos. Mas isso também é abocanhado e entra na Organização do conjunto folclórico.

Esta organização incorpora elementos de áreas de conhecimento e artes distintas, com destaque para o aspecto dramático em momentos variados, permitindo a união de música, danças, artes visuais e movimentos de expressão teatral de seus componentes, um trabalho que se inicia com meses de antecedência da grande noite, sendo de extrema importância seu processo de criação, sua construção para o momento apoteótico. Observando apenas o item Organização do conjunto folclórico, ironicamente desligado dos demais, mas formado pelos mesmos elementos, por si só, percebe-se o quanto se trata de um verdadeiro espetáculo, de fato grandioso, que tem seus campos de estudo na Etnocenologia, nas Artes do espetáculo. No geral, seu significado, sofisticação e magnitude relacionadas ao espaço geográfico e longo tempo histórico no qual as ações se concretizam são importantes fatores para explicar a admiração dos visitantes da região, que estranham a possibilidade da realização de um evento tão espetacular no meio da floresta.

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