No coração da Amazônia,
cercada por caudalosos rios, detentora de uma biodiversidade exótica e de uma
riquíssima pluralidade cultural, localiza-se aquela que se tornou um dos mais
importantes santuários da expressividade folclórica brasileira: Parintins, “a
ilha da fantasia”, “a capital mundial do folclore”. De habitação primeiramente
indígena, o lugar foi descoberto no século XVI por europeus que mais tarde
trariam seus escravos para trabalhar ali, fatores que fizeram com que o lugar
fosse sofrendo constantes mudanças ao longo do tempo, principalmente nos
aspectos socioculturais. Situada no interior do estado do Amazonas,
limitando-se com o Pará, é um dos principais municípios daquela unidade
federal, contando com uma população, urbana e rural, superior a 100 000
habitantes, população esta que toma grandes proporções durante o mês de junho,
devido ao grande número de turistas que chegam à cidade para apreciar a grande
festa parintinense, marco da quadra junina no município.
À margem direita do rio
Amazonas, na ilha Tupinambarana, Parintins revela ao mundo, através de seu
festival, uma mistura de fantasia e realidade, tradições e inovações, frutos da
inevitável miscigenação na qual índio, negro e branco contribuíram para a
constituição do Brasil, manifestação esta que se alastra grandiosamente pelo
mundo a fora, sendo considerado como o mais belo e espetacular festival
folclórico do planeta. O Festival Folclórico de Parintins tem como razão de
existência o auto do Boi-Bumbá, representados na cidade pelo Boi Garantido,
vermelho, e pelo Boi Caprichoso, azul. É uma festa realizada anualmente, desde
1965 e, atualmente, sempre nas últimas noites de junho, a céu aberto, em um
local conhecido como Bumbódromo, feito exclusivamente para a competição entre
as duas agremiações, por um período de três noites consecutivas.
A idade dos bois não é
necessariamente a do festival, pois já existiam eles muito antes disto, datando
do início do século XX sua criação e primeiras apresentações em solo
parintinense. Com o passar dos anos, as
apresentações foram ficando cada vez mais bonitas, novos integrantes apareciam,
novas ideias eram aperfeiçoadas, novos elementos foram sendo inseridos,
chegavam pessoas de outras regiões para apreciá-los, uma criatividade
gigantesca e exclusiva foi se formando em torno dos bois e, com o concurso,
crescia a vontade de um boi ser mais belo que o outro, de se fazer mais bonito
que o outro. A competição precisaria, então, de algo que limitasse e que
separasse o que podia e o que não podia durante as apresentações, pois com o
crescimento dos bois e sua fama, eram evidentes as desavenças, as brigas,
chegando muitas vezes a casos de polícia. Foi criado, a partir disso, um
regulamento que regeria toda a apresentação para que se chegasse de maneira
justa ao vencedor. E assim é.
Nas apresentações, os
bois exploram temáticas regionais com grande destaque para as lendas, os mitos,
o caboclo e o cotidiano amazônico, através de belíssimas alegorias,
coreografias, toadas, encenações e espetacularizações. No regulamento, estão
inseridos entre as demais normas, os quesitos de julgamento, que são os
denominados “itens”, os principais elementos das apresentações. Ao todo são 21 itens,
sendo eles de ordem individual ou coletiva, musical, cênica, coreográfica ou
artística e que, juntos, evoluem e transcendem nas noites de apresentação,
revelando o espetáculo da “ópera amazônica” aos olhos atentos do público em
geral e de jurados vindos das regiões nordeste e centro-sul do país. Nos
momentos finais das apresentações é magnífica a reunião dos itens individuais,
artísticos e coletivos embasados no conteúdo do espetáculo, e, por sua vez,
dispostos organizadamente na arena de apresentação, com suas diversidades,
harmonia, liberdade de movimentos e tempo, possibilitando, nesse instante,
analisar o todo: a Organização do conjunto folclórico.



Nenhum comentário:
Postar um comentário